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Zilah Wendel Abramo

publicado em 23/04/2006

 

Durante três anos (1978-1980), dediquei todo o meu tempo livre à campanha da Anistia. Representava no CBA/SP a Comissão de Mães em Defesa dos Direitos Humanos, que não era propriamente uma entidade, mas apenas um grupo de mulheres (a maioria mães de universitários) que se organizaram em junho de 1977, quando os estudantes saíam às ruas para reivindicar seus direitos ou para manifestar solidariedade para com os demais setores reprimidos da população, e tinham como resposta das autoridades toda forma de violência: espancamentos, prisões arbitrárias, bombas de gás lacrimogêneo, cerco e invasão dos campus.

Num dado momento nós tomamos consciência de que não poderíamos continuar, cada uma de nós isolada em sua casa, angustiada e impotente, esperando cada fim de ato público, cada fim de passeata, sempre temendo o pior. Resolvemos criar um grupo que rompesse o que chamamos, na nossa carta de apresentação, “a cumplicidade passiva do silêncio”, para assumir o apoio à luta dos estudantes, declarando publicamente a nossa concordância e a nossa identificação com os seus propósitos.

Com isso pretendíamos desmoralizar a tese das autoridades, que tentavam passar a versão de que a revolta dos estudantes contra o regime era um aspecto particular da "luta de gerações". Fruto dessa tese era a pretensão de poder contar com a cumplicidade dos pais e mães para dissuadir os estudantes da sua luta. "Contenham os seus radicais, que nós conteremos os nossos" era o que "eles" diziam, exigindo uma promessa de bom comportamento futuro, quando os estudantes detidos eram liberados. E nós, familiares, seríamos os fiadores desse bom comportamento. Era preciso responder com uma negativa veemente a essa pretensão, dizendo bem claramente que nosso objetivo não era conter o movimento estudantil, mas, ao contrário, apoiá-lo no que fosse possível.

Assim, começamos a atuar, organizando plantões de informação, que mantinham contato permanente com os diretórios estudantis, no sentido de receber e transmitir notícias sobre quaisquer incidentes (cercos, detenções, estudantes feridos ou ameaçados), e de estabelecer os necessários contatos com advogados, Imprensa, parlamentares e a Comissão Justiça e Paz. Nossa atuação mais importante deu-se no caso da invasão da PUC: fomos nós que conseguimos vencer o clima de amedrontamento imposto pela polícia aos familiares das moças feridas pelas bombas, fazer o levantamento da situação das quatro maiores vítimas: Cristina, Iria, Graziella e Virgínia, garantir que elas recebessem o adequado tratamento médico, e reunir o material informativo que integrou o dossiê utilizado pela CJP para instruir a ação indenizatória movida contra a Secretaria de Segurança Pública. Fomos nós também que fizemos o contato entre os familiares dos estudantes ameaçados de enquadramento na Lei de Segurança Nacional e os advogados que se ofereceram para defendê-los.

Amainada a onda de repressão contra o Movimento Estudantil, a Comissão de Mães pôde inserir-se nas lutas mais amplas por liberdades democráticas e integrou-se na campanha da Anistia Ampla, Geral e Irrestrita. Passávamos da retaguarda para a linha de frente e agora éramos nós que gritávamos nossas palavras de ordem nas ruas e nas praças, trilhando o caminho aberto pelos estudantes.

As lembranças marcantes são inúmeras (a chegada de Flávia Schilling, a epopéia de Teotônio Vilela nas suas visitas aos presídios, a coragem da inesquecível Madre Cristina, quando, apesar da sua fragilidade, encontrou forças para enfrentar e expulsar um torturador que tinha se infiltrado numa reunião no Sedes; o grande comício em que reunimos 10.000 pessoas na Praça da Sé, a pomba que pousou na faixa da Anistia). Destaco especialmente duas, que revelam, além da coragem, a criatividade, a capacidade de improvisação que foi uma das marcas da campanha:

- a chegada de Manuel da Conceição em Congonhas, vindo do exílio, quando ele foi carregado nos ombros dos circunstantes, numa verdadeira passeata improvisada no saguão do aeroporto, sob os olhos atônitos dos guardas armados, que não sabiam o que fazer diante de tanto atrevimento;

- a passeata organizada pelo CBA como repúdio à visita do ditador argentino Videla, e como homenagem às mães da Praça de Maio. Só mulheres participaram: todas vestidas de preto, cada uma levando na cabeça um lenço branco com o nome de um dos mortos ou desaparecidos, vítimas do terror argentino. Não havia slogans nem palavras de ordem, somente cartazes e faixas com os nomes das vítimas. Desfilávamos em silêncio, e só se ouvia, de quando em quando, o barulho das matracas, idéia brilhante da atriz Ruth Escobar, que as havia encomendado na Penitenciária do Estado. Fomos do Teatro Municipal ao Largo de S. Francisco, onde os homens (maridos, pais, amigos, companheiros) nos esperavam apreensivos. Apreensão inútil: por onde passávamos, os populares abriam caminho, respeitosos, emocionados.

Foram anos de muita emoção, de muita vibração, de muita solidariedade. A campanha da Anistia foi a continuidade natural do nosso trabalho na Comissão de Mães. Ambas as experiências constituíram o processo de minha libertação do período anterior, de semi-clandestinidade, quando aparentemente tinha uma vida normal, com endereço certo, trabalho garantido, documentos em ordem, mas os meus verdadeiros sentimentos, minhas idéias e convicções, estavam na clandestinidade, porque só podiam ser expressos "atrás de portas fechadas, à luz de velas acesas", como os dos conspiradores do Romanceiro da Inconfidência.

 

*Zilah Wendel Abramo, participante do CBA/SP e vice-presidente da Fundação Perseu Abramo.

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