Conceição: um olhar humanista e necessário
Fácil e difícil ao mesmo tempo fazer alguma consideração sobre a professora e economista Maria da Conceição Tavares. Sou contagiado pela admiração que sinto por sua figura de enorme brilho. Porém, a esse sentimento transcende a percepção, muito clara e tangível, de sua trajetória de inegável influência no pensamento econômico brasileiro. E, de modo mais amplo se pode afirmar, sem risco de errar, que em boa parte da sua vida, aquela que se diz uma socialista utópica, tem se dedicado a mudar alguma coisa no mundo, para melhor.
A combativa Maria da Conceição Tavares começou cedo suas lutas: em Portugal, onde nasceu e cresceu, e depois no Brasil, que adotou como seu. Particularmente, tive a honra de ser seu contemporâneo na Câmara dos Deputados no período 94/98 e pude compartilhar do mesmo produtivo espaço de convivência por ela ocupado de forma tão brilhante. A biografia de Conceição Tavares só confirma essa afirmação.
Considerada polêmica e até mesmo intransigente na defesa de suas ideias, em qualquer das esferas por onde já transitou – seja na vida política ou no universo acadêmico – sempre levou a sua contribuição efetiva para enfrentar os desafios da economia e do desenvolvimento. Por isso, é respeitada por adversários e reverenciada pelos que se identificam com suas opiniões.
Um traço marcante da personalidade de Conceição Tavares é a capacidade de aliar lucidez e paixão em suas análises e postulados. E com essa franqueza despojada, tem demorado mais o seu olhar crítico sobre a realidade do Brasil e da América Latina, usando a sua verve intelectual, sempre em favor das populações mais desamparadas. Tanto assim que, a consideração que dispensa ao contingente de excluídos economicamente a colocou na cena de protagonismo do Partido dos Trabalhadores, ao qual se filiou. Esse perfil é bem próprio de quem, antes, esteve junto com Ulysses Guimarães, na tribuna do PMDB, lutando pela redemocratização do país. É bem próprio de quem tanto já se exacerbou em contrário à ideologia da globalização e é capaz, ainda hoje, de se manter “fora da nova ordem” toda vez que crises, bolhas, mercados, governos fecharem portas ao crescimento, a distribuição de renda e a inclusão social.
E dizer que essa jovem senhora, que acaba de completar 80 anos, ainda não largou o cigarro e a rebeldia e se prepara para novas jornadas de fôlego, alimentando agora concretas esperanças, pelo menos sobre o Brasil.
Parabéns à decana dos economistas brasileiros, autora de inúmeros artigos, ensaios e livros, professora de várias gerações. Parabéns à Conceição – incansável e necessária.
*Paulo Bernardo, Ministro do Planejamento, Orçamento e Gestão.
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