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Livros: Cante lá, que eu canto cá

Teoria e Debate nº 60 - novembro/dezembro de 2004

publicado em 22/10/2009

por Walnice Nogueira Galvão*

A redondilha maiordo nunca assaz louvado poeta repentista Patativa do Assaré, cantador cearense extraordinário, vem à lembrança de quem compulsa os três volumes deste livro. E, se alguém ainda não soubero quanto os mais inesperados setores da população sentem-se ligados à música popular, após essa leitura não restarão dúvidas. Reunindo as contribuições de uma trintena de respeitáveis acadêmicos, o compêndio percorre boa parte dos filões e nichos de nossa produção, cobrindo, como o título indica, o período republicano.

Este, como se sabe, abrigaria o início da indústria fonográfica e da difusão pelo rádio. Foi assim que, tendo agora a seu alcance a reprodutibilidade, advinda do avanço da tecnologia, a canção popular pôde distanciar-se de suas origens folclóricas, sobretudo rurais. Amalgamando fontes e influências provindas de todos os quadrantes, acabaria por cristalizar-se num produto típico da modernidade urbana, em nosso caso frutificando no formato "nacional"que é o samba, com certidão de nascimento lavrada no Rio de Janeiro.

Munidos dos apetrechos que integram o arsenal da profissão, nossos autores dedicam-se a analisar um repertório tão vasto quanto estimulante. Debulhando o material, passam-se por peneira fina os sambões, nas firulasfilosofantes de Noel Rosa e de Lupicínio Rodrigues. Os perfis das mulheres, alvo de idolatria ou de denegrimento, indo desde os modelos de abnegação como Amélia até as hodiernas, mais espevitadas, de Chico Buarque e Rita Lee. 0 malandro em suas visagens e virações, inclusive na oposição ao trabalhador. 0 lugar que a cidade lhes dá e não lhes dá. Amores e dores, que tampouco rimam. As agruras de viver. 0 protesto embutido nas reclamações, queixumes e suspiros. 0 cotidiano e a rotina da metrópole. As tensões entre o público e o privado, de limites sempre mal definidos. Embalando a cultura do hip-hop, o rap e as reivindicações dos excluídos da periferia. E não falta a canção do Nordeste, do baião ao man-gue-beat. Um leque de ícones, figurações e temas.

Inventário Histórico e Político da Canção Popular Moderna Brasileira é o subtítulo geral da coleção de três volumes. Mas cada volume tem o seu próprio: o primeiro fala de "Outras conversas sobre osjeitos da canção"; ao segundo cabe debuxar o"Retrato em preto e branco da nação brasileira"; e o terceiro se encarrega de demonstrar que"A cidade não mora mais em mim No conjunto, voltam-se todos para a construção de um imaginário urbano, aliás metropolitano - e para a crônica da República, enfim.

*Walnice N. Galvão é critica literária, integra o Conselho de Redação de Teoria e Debate

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