Golpe de 64
Li com preocupação a matéria do historiador Jacob Gorender (“A sociedade cindida”) em Teoria e Debate nº 57. Duas afirmativas me deixaram particularmente intrigado. A primeira, ao criticar o “generalizado emprego da classificação do evento como golpe militar. Emprego no qual eu mesmo tenho incidido”. A segunda, ao escrever que “o que chamamos de golpe militar teve inequívoco e poderoso apoio social”.
Curioso, só agora fiquei sabendo que andei errado o tempo todo, pois o que tivemos em 64 não foi um golpe, mas, pelo que o historiador deixa subentendido, coisa mais palatável, uma revolução, por exemplo! Não sou historiador, não disponho, como cidadão comum, dos dados e dos conhecimentos sociopolíticos do senhor Jacob, mas, para mim, o que tivemos em 31 de março de 64 (ou melhor, em 1º de abril) não passou de uma clássica quartelada no pior estilo e molde das intervenções militares da América Latina. Tivemos um golpe, sim, e não há por que fazer uma releitura de uma coisa absolutamente clara e sabida. A quem interessa esse revisionismo? Certamente não à sociedade brasileira nem a sua história, mas à direita mais rançosa e que promoveu (e estará sempre disposta a aventuras semelhantes) essa quartelada e a ela se aliou despudoradamente. Achei a matéria do senhor Jacob pobre, incompleta e tendenciosa.
O golpe de 64 começou a ser planejado muito antes, na crise do governo Vargas, crise gerada e amamentada pelos mesmos golpistas de 64. Esse aspecto mereceria uma análise mais profunda na matéria de Teoria e Debate. Faltou também ao historiador a referência ao Instituto Brasileiro de Ação Democrática (Ibad), inteiramente financiado pelo governo americano e com a tarefa específica de garantir a eleição de pessoas (ou a reeleição de congressistas) comprometidas com as causas antinacionais. Todos nós sabemos da atuação golpista desses deputados e senadores. Faltou também esmiuçar a atuação de grupos como a Campanha da Mulher pela Democracia (Camde) e Liga da Mulher pela Democracia (Limde). Quem estimulou esse grupo de dondocas? Quem as fez sair do plácido comodismo de seus ricos lares, de seu comodismo e alienação políticos para o palco da agitação de ruas? Por que nenhuma referência ao agente da CIA, o escroque padre americano Patrick Peyton, que aqui esteve, de rosário na mão, para pregar o golpe, açulando o medo crônico de nossa classe média? Março de 64 foi um golpe anunciado e a classe média (como viria a se repetir no Chile em 74) embarcou no grande engodo patrocinado pelos golpistas daqui, com ajuda financeira e logística das CIAs da vida!
Só podemos entender o “poderoso e inequívoco apoio social” de que nos fala o senhor Gorender sob essa ótica e dentro da moldura dos interesses estranhos que fizeram a cabeça dos militares brasileiros, estipendiaram nossos congressistas e aterrorizaram a classe média para garantir esse apoio. Não há como fugir a esse esquema e qualquer outra explicação, qualquer releitura, qualquer revisão que se faça do golpe e da ditadura que se lhe seguiu é puro desserviço à historiografia brasileira e aos interesses nacionais. Não fica bem a um historiador, do porte e da importância do senhor Jacob Gorender, enveredar por esse caminho.
Elisabeto Ribeiro Gonçalves
Belo Horizonte - MG
Gostaria que o ensaísta Jacob Gorender corroborasse a afirmação à página 61 de Teoria e Debate nº 57 de que o comandante do III Exército, em agosto/setembro de 1961, era Jair Dantas Ribeiro, e não o general (ou marechal?) José Machado Lopes, que, pelo que me lembro, foi, juntamente com Brizola, o grande responsável pela Marcha da Legalidade, em favor da posse de Jango Goulart.
João Marcos Schettino
Desde o número 1
Acompanho Teoria e Debate desde o número 1. Já somos a revista de esquerda com maior tempo em circulação contínua do Brasil. Ainda lembro da primeira chamada de capa: “Quem são os nossos aliados?” Aliás, esta edição é a única que perdi. Numa de minhas andanças, ao encaixotá-las por algum tempo, as traças (certamente traças do PFL...) comeram minha histórica n° 1. Mas, o restante, tenho todas. De modo que saúdo esta nova fase bimestral e, retornando ao costume, volto a fazer mais algumas sugestões. A saber:
1) A sugestão do leitor Idney Cordão de Camaçari (BA), na edição n° 57, de uma TD.com é excelente idéia. Podemos ter na revista on-line comentários e debates acerca dos artigos publicados bimestralmente. Comentários de leitores e dos autores dos artigos. É verdade que temos o Periscópio, boletim da Fundação Perseu Abramo. Mas, além de ser quinzenal, ele me parece frio. O TD.com teria de ser um site “vivo”, politizado e diário, ao menos de segunda a sexta, para discutir a fundo as políticas públicas do PT e do governo Lula a partir dos artigos e análises da revista e também a partir das práticas do PT no poder. Com respostas diárias – e profundas – ao tiroteio da grande imprensa.
Os sites do PT, do Informes e da Fundação possuem finalidades distintas e nenhum deles cumpre esse propósito. Portanto, reforço, a idéia do leitor é muito boa e deve ser implementada já.
2) A revista impressa pode ser mais colorida sem abrir mão daquelas fotos em preto e branco, que são lindas. Aquela capa da mulher grávida com foto de Sebastião Salgado ficou uma beleza. Aliás, vocês deveriam trazer de volta aqueles ensaios fotográficos, em todas as edições. Certamente, não faltarão ensaios para publicação.
3) Há tempos sugeri a publicação de contos, para tornar a revista um pouco menos densa. A idéia foi aceita por algum tempo, e depois abandonada. Assim como abandonaram a excelente série de entrevistas sobre MPB (por que não reunir a série em livro?). Sumiram também com as críticas e indicações de vídeos/DVDs. Por quê? Quero de volta as entrevistas de MPB e também a seção de crítica de DVDs. Como sugestão para o retorno, poderiam ser comentados todos os filmes do genial cineasta engajado Ken Loach.
4) Para o site www.teoriaedebate.org.br e também para a revista impressa, sugiro a publicação de um caderno de teses, que captaria na sociologia, na ciência política e na economia teses de pós-graduação pouco divulgadas, e portanto não publicadas em livros. Em concordância com os autores, publicaríamos resumos na revista impressa e a versão integral no site.
5) Sem deixar de ser uma revista teórica, portanto pesada e densa (aí não tem jeito, em princípio tem de ser assim mesmo...), precisamos de uma reviravolta na diagramação de Teoria e Debate. Abandonemos esta diagramação sisuda, quase sinistra, por uma mais leve.
6) Em tempos passados foi feita uma permuta de publicidade de TD com outras publicações. Seria interessante, agora em nova fase, uma segunda permuta com Caros Amigos, Reportagem, Brasil de Fato, Pasquim21, Princípios, do PCdoB, e até com revistas semanais como IstoÉ e Carta Capital ou alguns jornais diários de grande circulação. Talvez assim impulsionemos um pouco a base de assinantes da revista.
7) Por fim, a revista é enviada pela Fundação Perseu Abramo a todos os diretórios municipais do PT, bastando para tanto que os DMs mandem ofício assinado pelo presidente e pelo secretário. Ainda assim temos problemas. Sugiro que a Fundação mande um exemplar para todos os diretórios com ofício informando que a continuidade da assinatura gratuita somente se dará com a devolução de um questionário com sugestões de DMs para a revista, de como divulgá-la melhor, aumentar o número de assinantes etc.
Vida longa a Teoria e Debate.
Nilton José Dantas Wanderley
Brasília – DF
Esperança/frustração
Venho manifestar minha grave preocupação com os rumos do nosso (?) governo Lula.
A expulsão dos quatro “radicais” é emblemática triste de um partido e governo que ao mesmo tempo em que afasta draconianamente bravos e esclarecidos militantes como a senadora Heloísa Helena promove troca-troca de duvidosa ética e duvidoso efeito administrativo com PMDB na calada do recesso carnavalesco. É que ao invés de promover mais direta participação popular, v.g., via Orçamento Participativo nacional, o governo Lula privilegia o espaço do Parlamento, como qualquer governo Rigotto, tornando-se, portanto, refém deste mesmo Parlamento cuja composição não sugere grandes mudanças. E nem repetimos a estranheza da ambígua ocupação do Ministério da Agricultura, Comércio e BC, que tentam nos impingir autonomia do BC, transgênicos, CDE e outros pratos de duvidoso tempero. E até quando vamos governar via MP?
Preocupam os métodos de punir parlamentares do próprio partido, chegando ao cúmulo de punir um deputado por este ter resgatado discursos de Lula de anos atrás.
No máximo, caberia aplicar a sugestão do ministro Olívio, infelizmente não ouvido. Lamentável ouvir voz e voto da senadora Ideli Salvatti e Cristovam Buarque, entre outros, no episódio da expulsão dos quatro. E por que Lula não compareceu à reunião do DN que decidiu pela expulsão? Infelizmente, o presidente Genoino parece empenhado em tornar o partido subalterno ao governo, quando caberia o contrário. Aonde se quer chegar? Não foi este o programa de mudanças que 52 milhões elegeram nem os métodos. A menos que haja substancial mudança de objetivo e métodos, menos vedetismo e mídia, menos improvisos e churrascos, e mais humildade e diálogo com o partido e aliados históricos, a esperança transforma-se em frustração, como a grave atitude de valorosos companheiros históricos como Chico de Oliveira e Carlos Nelson Coutinho e outros acaba de nos dizer.
Ernesto Cassol
Erechim – RS
td.com
Sugiro a criação de um site específico da revista Teoria e Debate com informações diárias, para que possamos ter uma alternativa ao competente, porém tucano, site de Primeira Leitura. Precisamos de um veículo também competente, utilizando e melhorando a estrutura de Teoria e Debate, que siga a mesma linha editorial, porém com o dinamismo de uma publicação diária.
Idney Cordão
Camaçari – BA
Igualdade racial
A Fundação Perseu Abramo poderia tratar do tema racial junto com as secretarias nacional e estaduais de Combate ao Racismo do Partido dos Trabalhadores! Contamos também com a Secretaria/Ministério Especial de Promoção da Igualdade Racial e uma gama enorme de representações da sociedade civil organizada em torno do assunto.
A revista Teoria e Debate poderia, por exemplo, destinar uma página para desenvolver o tema: uma entrevista com alguém que trate do tema educação – inclusão da história da África no currículo escolar.
Saudações quilombolas,
Pedro Cavalcante
Membro do Coletivo da Secretaria Estadual de Combate ao Racismo PT-PE
FUNDAÇÃO PERSEU ABRAMO
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