"Na medida em que o partido passa a governar em coalizão, que partilha o governo com os aliados – e é natural que assim seja na democracia –, e as políticas deixam de estar ancoradas num programa tão claro é de se supor uma confusão de imagens que não havia tempo atrás." A análise, do cientista político e professor das USP Gustavo Venturi, ajuda a entender as idas e vindas da corrida eleitoral dos últimos meses.
Venturi é um dos entrevistados da edição nº 89 da revista Teoria e Debate, e fala sobre as transformações pelas quais vem passando o Brasil no governo Lula e as novas relações entre militância, partidos e sociedade. Em pauta, assuntos quentes, como a percepção pública do Partido dos Trabalhadores, a confiabilidade das instituições políticas junto à população e as estratégias do jogo eleitoral.
Confira alguns trechos:
Sobre o eleitorado petista e as preferências partidárias
Gustavo Venturi: "(...) Quando dizemos que um a cada quatro brasileiros prefere o PT não é que os outros três estejam com outros partidos. A soma da preferência pelos demais partidos dá cerca de 25% e a outra metade do eleitorado não tem preferência partidária – um baixo índice de consideração dos partidos que ficou estável nos últimos 25 anos.
Mas ter metade da metade que tem preferência é um diferencial do ponto de vista eleitoral muito forte. Toda candidatura petista a governo ou ao Senado tem como um dos primeiros elementos a trabalhar a identidade partidária; candidato de nenhum outro partido tem essa possibilidade. Com 25% de preferência nas grandes cidades ou estados, na medida em que o candidato ou candidata do PT trabalhe essa identidade, se atinge cerca de 80% de “fidelidade” desse eleitorado, está praticamente disputando uma segunda vaga apenas com os votos petistas. Esse é um fator que também vale para a disputa presidencial. Embora a popularidade de Lula seja bem maior e tenha o reconhecimento de governo transferido para sua candidata, a base de apoio petista é fundamental para Dilma, dada sua capilaridade, ligada ao enraizamento histórico e social do partido no Brasil e ao apoio nos movimentos sociais".
As contradições das políticas de coalizões
Gustavo Venturi: "(...) Eu diria que se trata de um movimento contraditório, porque muitos eleitores que não acompanhavam o perfil ideológico dos partidos agora estão formando uma imagem, em particular do PT, a partir dos resultados do governo. Ao fazer uma análise objetiva desses resultados, podem passar alheios à salada ideológica das alianças e avaliarem que, se quem está governando é o Lula e ele é do PT, então o PT é um bom partido. Isso explica em parte a recuperação do PT na preferência partidária nos últimos anos. Mas para aqueles que olham pelo viés mais ideológico e menos pelos resultados, as alianças geram uma confusão muito grande e possivelmente descrédito".
A nova edição traz ainda uma entrevista exclusiva (disponível para download) com o ministro Luiz Dulci, entre outros destaques. Teoria e Debate pode ser adquirida em livrarias e pela loja virtual da EFPA.
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