você está em:

 


 

Periscópio Internacional: Derrota dos democratas nos EUA complica a agenda de Obama

publicado em 10/11/2010

por Kjeld Jakobsen para o Boletim Periscópio Internacional*

A debilidade dos democratas dois anos após terem realizado o feito de eleger o primeiro presidente negro da história dos Estados Unidos foi confirmada na eleição intermediária para Congresso, Senado e alguns governos estaduais. O resultado reafirmou o descontentamento com o presidente Obama que já era percebido há meses.

Surfando nesta onda, o Partido Republicano retomou o controle do Congresso dos EUA na eleição realizada em 2 de novembro e impôs ao presidente Barack Obama uma dura derrota que terá reflexos tanto na política doméstica quanto na externa. Os republicanos agora têm maioria de 58 representantes na Câmara e ultrapassaram seu recorde histórico de 1994, quando conquistaram 52 cadeiras a mais do que os democratas. Nas eleições daquele ano também fazia dois anos que um presidente democrata tinha sido eleito, no caso, Bill Clinton. O congressista republicano de Ohio, John Boehner, deverá assumir o lugar da democrata Nancy Pelosi como presidente da Câmara.

No Senado serão 52 democratas e 46 republicanos, com dois ocupantes ainda indefinidos e no Congresso, serão 239 assentos republicanos contra 186 democratas, com 11 ocupantes ainda indefinidos. Antes do pleito, os democratas detinham 255 das 435 cadeiras.

Portanto, os democratas ainda mantiveram a maioria no Senado, mas perderam a maioria absoluta que impedia que o partido Republicano aplicasse a técnica de “fillibuster” (obstrução) para atrapalhar as votações. Os republicanos cresceram seis assentos na casa. O presidente democrata do Senado, Harry Reid foi reeleito, mas por pouco.

A campanha norte-americana foi marcada pela oposição raivosa feita pela ala conservadora do Partido Republicano e os manifestantes da ala que formou o “Tea Party”. Dois dos expoentes deste foram eleitos para o Senado, Rand Paul no Kentucky e Marco Rubio na Florida, e devem levar seu discurso de extrema direita para Washington a fim de alcançar maior visibilidade e influência na oposição ao governo Obama. Apesar da intensa cobertura na mídia, a candidata da ala “Tea Party” ao senado Christine O'Donnell foi derrotada em Delaware, estado que já foi representado anteriormente pelo vice-presidente Joe Biden.

As pesquisas de boca de urna revelaram o perfil dos eleitores. Estão majoritariamente frustrados com o governo federal, altamente preocupados com a economia, mas têm opinião desfavorável a ambos os partidos. Apesar da aprovação da reforma da saúde e dos gastos com o estímulo da economia, a maior parte dos eleitores consultados se declarou mais insatisfeito com o Congresso do que quando os democratas assumiram o controle da casa em 2006.

Um fator que fortaleceu a oposição republicana foi o apoio recebido de Wall Street. Após duas eleições seguidas apoiando fortemente as candidaturas democratas, em 2010 foi a vez dos republicanos receberem milhões em contribuições dos banqueiros americanos como punição ao governo pelas reformas no sistema financeiro internacional, apesar da inocuidade delas. O curioso é que as doações aos candidatos do partido Republicano começaram a se intensificar em janeiro, justamente quando o governo se esforçava para desenhar um plano de resgate às instituições financeiras afetadas pela crise.

A crise, obviamente tem seu impacto na eleição principalmente na preocupação dos eleitores com os rumos da economia americana que não tem reagido. Fala-se o tempo todo em “Third World America” (EUA do Terceiro Mundo) a partir das análises de crescimento, nível de desemprego e desaparecimento da classe média, símbolo maior do sonho americano.

Neste clima, analistas também chamam a atenção para a questão da imigração na eleição. Em uma pesquisa realizada pela Universidade de Quinnipiac e publicada no LA Times, 68% dos entrevistados afirmaram que gostariam de ver leis de imigração mais duras em vez de práticas de integração dos imigrantes à sociedade. Além das políticas de Obama com relação aos imigrantes os eleitores conservadores não digeriram a aceitação do presidente da construção de uma mesquita no local onde ocorreram os atentados de 11 de setembro de 2001 em New York.

Outro dado do rumo político complicado do eleitorado americano em meio à crise é que o Senado, neste mandato, não terá nenhum representante afro-americano. Os três candidatos negros do Partido Democrata que disputaram a eleição em estados sulistas não foram eleitos: Kendrick Meek (Florida), Alvin Greene (Carolina do Sul) e Mike Thurmond (Georgia) e o único senador negro que atualmente ocupa um assento, Roland Burris (Illinois) anunciou que se aposentará.

Para os governos estaduais, 29 dos 50 estados estarão nas mãos dos republicanos, 15 terão governadores democratas, o governador de Rhode Island é independente e cinco estados ainda esperam a conclusão da contagem dos votos.

A California recebeu atenção adicional pelas consultas que realizou junto com a eleição parlamentar, principalmente sobre a legalização da maconha e reforma da lei ambiental. Porém, ambas foram derrotadas nas urnas. A proposta 19, sobre a maconha, recebeu grandes doações e teve uma campanha agitada, mesmo assim perdeu por 54% e não teve o impacto esperado em termos de mobilização.

As poucas e pequenas mudanças positivas que se podia ainda esperar do governo Obama agora deixam de existir como, por exemplo, a legislação ambiental. A avaliação corrente de que o acordo internacional vinculante e geral sobre mudanças climáticas depende dos avanços dos EUA em sua lei, dá contornos difíceis ao preparo da COP-16 a ser realizado proximamente no México. Outro exemplo é a derrota do senador democrata Russ Feingold (Wisconsin), membro do comitê de Relações Exteriores e muito comprometido com o fechamento da prisão de Guantanamo e com a oposição aos acordos de livre comércio. Sua saída levará o comitê a se inclinar mais a direita.

Em um país onde o voto não é obrigatório e depende de mobilização das bases, o partido Republicano teve melhor papel em mostrar a importância de se ir às urnas para defender o país do presidente “socialista” e “muçulmano”. Com sua vitória motivaram ainda mais sua base para tentar tomar a presidência em 2012 com posições ainda mais radicais e conservadores do que presenciamos com Bush e os neo-cons.

Em seu primeiro pronunciamento após a votação, em 3 de novembro, o presidente Obama falou da frustração dos eleitores e reconheceu sua responsabilidade pela derrota anunciando que trabalhará com os republicanos em corte de impostos e política energética, duas áreas com impasses. Isso só reforça a percepção de que, de agora em diante, veremos o presidente se posicionar cada vez mais a direita a fim de tentar salvar sua reeleição em 2012.

*Este texto integra a edição nº 50 do Boletim Periscópio Internacional, boletim de responsabilidade da
Fundação Perseu Abramo e da Secretaria de Relações Internacionais do PT (a ser publicado na próxima semana)

Leia mais em:

- The Guardian: Midterm election results: the fight Obama now faces

- AFP: Wall Street backing Republicans in elections

- LA Times: Immigration issues hurting Obama, poll finds (setembro 2010)

- The Nation: Suppressing the Vote

- The Nation: Economy, Not Health Care or Deficits, Drove Midterm Vote

- Commondreams: Payback at the Polls

- Huffington Post: Gay-Rights Groups See Election As Major Setback

- The New Yorker: As the World Burns - How the Senate and the White House missed their best chance to deal with climate change

- Mapa com o resultados das eleições 2010

- Campanha pela legalização da maconha na California através da proposta 19

 


Tags     0 comentário


  • Notícias

  • FPA na Rede

  • Serviços

  • Buscar no Site

 

Partido dos Trabalhadores


FUNDAÇÃO PERSEU ABRAMO
Rua Francisco Cruz, 234 - Vila Mariana - CEP 04117-091 - São Paulo - SP - Brasil Fone: (11) 5571-4299 - Fax (11) 5571-0910