"Em sua origem, a AP caracterizava-se pela busca de ideologia e de caminhos próprios. Sob influência do cristianismo, do existencialismo e do marxismo, tentava formular uma nova síntese política, como se verifica em seu Documento base. O conceito-chave desse documento era o de 'socialismo como humanismo', por meio do qual a Ação Popular criticava as ditaduras de esquerda e o chamado socialismo real. Sua formulação salientava o fato de que, na superação do capitalismo, tenham surgido novas formas de dominação e alienação. Defendia-se a tese de que, no complexo mundo socialista em gestação, poderiam existir experiências com orientações ideológicas plurais. A realidade comportava a possibilidade de "diversas concepções de passagem ao socialismo.
Na formulação da estratégia política, embora reconhecesse a existência de um setor feudal nas estruturas econômicas, recusava a concepção de que deveria haver uma fase de consolidação do capitalismo como etapa necessária à revolução brasileira. De qualquer forma, não supunha possível uma evolução imediata. A AP declarava que se propunha 'a tarefa de elaborar com o povo, na base deste, a nova sociedade'. Dispunha-se a desencadear o que chamou de "processo de preparação revolucionária", definido como 'mobilização do povo, na base do dsenvolvimento de seus níveis de consciência e organização'. Alegava que não seria possível antecipar como ocorreria o processo revolucionário. Adiantava, porém, que 'a história não registra quebra de estruturas sem violência gerada por essas mesmas estruturas, que produzem, em última análise, essa consequência'".
O trecho acima, extraído do artigo "A Ação Popular Marxista-Leninista e a formação do PT", do historiador Reginaldo Benedito Dias (publicado na edição nº 3 da Revista Perseu), resume a origem daquela que viria a ser uma das principais organizações de esquerda de nossa história recente: a Ação Popular.
Nascido no início dos anos 1960, o emblemático grupo foi um dos pólos de mobilização popular contra a ditadura militar, articulando, em suas diversas fases, boa parte da esquerda nacional por quase duas décadas.
E é com o debate sobre a AP, sua história e seu legado, que a Fundação Perseu Abramo abre nova série de debates sobre as esquerdas brasileiras. Promovido pelo Centro Sérgio Buarque de holanda da FPA, o debate, que acontece na próxima terça-feira, 14/8, contará com o sociólogo e professor da Unicamp, Marcelo Ridenti, autor do estudo "Ação popular: Cristianismo e Marxismo" e de livros sobre a esquerda brasileira, e de Ricardo de Azevedo, ex-militante da AP e autor do livro Por um triz: memórias de um militante da AP.
O evento, que acontece no auditório da Fundação Perseu Abramo na próxima terça-feira, 14/9, é parte do ciclo de debates "A propósito", do CSBH. Para participar, é necessário fazer inscrição prévia pelo telefone (11) 55714299, ramal 124. A FPA fica na rua Francisco Cruz, 234, Vila Mariana, São Paulo/SP.
Para saber mais sobre a AP e os debatedores convidados, confira a seleção de textos e livros do Blog FPA:
- Artigo: O espírito da época no pós-1964, por Marcelo Ridenti
- Teoria e Debate: Entrevista com Herbert de Souza, o Betinho (publicado em Teoria e Debate nº 16 - outubro/novembro/dezembro 1991)
- Biblioteca Digital: Versões e Ficções - O Sequestro da História, de vários autores (publicado pela EFPA)
- Biblioteca Digital: Rememória - Entrevistas sobre o Brasil do século XX, organizado por Ricardo de Azevedo e Flamarion Maués
- Revista: Revista Perseu nº3 - Dossiê Anistia e Diretas | Ditadura e Democracia
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