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Desutopias

publicado em 08/08/2011

Por Roberto Saturnino Braga
Fonte

Correio Saturnino

Falei outro dia sobre as Utopias do século XXI, e de repente me sobressalto com possíveis desutopias não muito distantes no tempo. Eu disse possíveis, quase escrevi prováveis, mas não quero ser cassândrico. Os desastres que se desenham no horizonte são de duas naturezas: ambiental e econômica.

Obviamente, me preocupam muitíssimo os ambientais, já que fatalmente, vão nos atingir a todos, como já nos estão atingindo. A luta mundial é para tentar reduzir o tamanho dos estragos. Entretanto, mal ou bem, com uma intensidade e uma profundidade ainda muito aquém da necessária, a conscientização da gravidade do problema já existe em todo o mundo. Políticas públicas se praticam com vistas à redução da destruição em marcha. A ciência se debruça sobre o tema e todo dia tem algo a dizer; a sociedade civil se mobiliza através de publicações e organizações bastante atuantes. Enfim, há esperanças fundadas de que se possam controlar os efeitos mais deletérios da agressão ambiental.

O desastre econômico, entretanto, cujo espectro assombroso se adensa no horizonte, é tratado fraudulentamente pela grande mídia que representa os interesses dominantes, e a consciência popular mundial fica afastada das questões primordiais, como as relativas ao sistema financeiro, e as políticas praticadas são menos que paliativos, são verdadeiras falsidades afirmadas para satisfazer os interesses dos grupos endinheirados.

O exemplo mais conspícuo dessa falsidade está no pacote político-econômico norteamericano lançado esta semana para resolver a questão da dívida e da insolvência da maior e mais poderosa economia do mundo em todos os tempos. Não sou economista e passo ao largo da discussão técnica, mas cortar fundo o gasto público em vésperas de depressão grave é disparate; cortar especialmente o gasto social, para não elevar a arrecadação com impostos sobre os ricos escandalosamente beneficiados, é iniquidade insana; não tocar no sistema financeiro é fingir que não se sabe nada sobre a verdadeira causa da crise. Tudo isso para enfrentar um processo de endividamento incontrolado que tem toda a força para prosseguir enquanto a nação se divide  num confronto político radical sem precedente. Tudo isso é altamente alarmante.

O Presidente Obama, que certamente está alarmado pela consciência que tem do risco, teve de aceitar, como qualquer um aceitaria, para evitar a catástrofe imediata. Ganhou tempo, contando com algum progresso na conscientização nacional, com uma possibilidade de reeleição que possa fortalecê-lo politicamente para enfrentar mais adiante a radicalização ensandecida da direita. Compreende-se. Mas pergunta-se: terá esse tempo?

E se nosso olhar se volta para a Europa o rebate reverbera, grita mais alto ainda, a palavra de ordem é cortar gastos para pagar as dívidas e deixar entrar a recessão, cujo símbolo mais expressivo é a figura descarnada da nova dirigente do FMI. Do Japão, sabe-se, não virá com certeza nenhum alívio. É todo o mundo rico que desaba, o mundo do Mercado. Ou tem uma grande probabilidade de desabar.

Como será então esta segunda década do século? China, América do Sul e Brasil perguntam com ansiedade. Têm condições de enfrentar o tranco: a China é uma força nova e portentosa; e ainda se pode contar com a Índia e a África do Sul. O Brasil tem reservas; não só reservas cambiais mas reservas de dinamismo com sua política desenvolvimentista de presença forte do Estado e alargamento distributivista do seu mercado.

Tudo isso, entretanto, é altamente perigoso e de difícil previsão; se o craque realmente ocorrer, não haverá salvação para ninguém. Eu prefiro acreditar que não ocorrerá; confio na percepção da humanidade e acho que uma recessão prolongada, e razoavelmente controlada, é o mais provável. É ruim para nós porém não catastrófica: como disse, estamos num momento muito bom, de impulso, de coesão política e de criatividade.

O que assusta mais é que o Mercado Financeiro não para e na sua avidez de ganhos fáceis escapa a qualquer controle, já que ele é a força mais poderosa no controle político do Primeiro Mundo. O Mercado Financeiro e o Consumismo, eis a propulsão do processo. O Consumismo também cresce, e no mundo inteiro, inclusive na China. E também, claro, no Brasil: o desenvolvimentismo é consumista na sua essência. E o Consumismo, a longo prazo, mata o planeta. Se parar, é como bicicleta, derruba toda a Economia. Mas isso é a longo prazo, e nós, brasileiros, estamos só começando. Não quero ficar falando como o velho do Restelo diante das caravelas que se embandeiravam para descobrir o mundo. Vamos em frente. Lá na frente a gente
vê.

Entretanto há um único país no mundo que realmente baniu o Consumismo. É um territoriozinho com uma populaçãozinha medíocre, atrasada, que há décadas convive bem com a pobreza material. E parece feliz, quem sabe? Trata-se de Cuba. É importantíssimo preservar esta experiência humanística.

*Saturnino Braga, ex-senador (PT/RJ), membro do Conselho Curador da Fundação Perseu Abramo.

 

Leia do mesmo autor:

- O Curso das Ideias: A história do pensamento político no Brasil e no Mundo, publicado pela Editora Fundação Perseu Abramo

 

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