Estas questões são condições para que possamos tratar da quinta dimensão do processo de refundação: a discussão do projeto estratégico do PT e do projeto nacional a ser defendido pelo partido nos próximos anos. Entendemos que a perspectiva socialista, seguramente deve nos guiar nessa direção, ainda que seja inadiável o debate teórico entre nós sobre o seu significado e alcance, a partir do diálogo e da troca de experiências com as forças e partidos de esquerda em nível mundial. O debate continua a não ter nada de simples se consideramos a crise do socialismo e os efeitos por ela causados no imaginário das sociedades; os resultados econômicos, sociais e culturais produzidos pelo processo veloz e violento de globalização do capital e o legado das políticas neoliberais. Um projeto de poder que não esteja profundamente ancorado na perspectiva de superação do capitalismo e de suas formas atuais dificilmente poderá guiar suas ações visando à superação das desigualdades sociais, restringirá suas propostas a minimização da exclusão, que, evidentemente, deve ser perseguida por políticas específicas como condição da sobrevivência física de amplos segmentos da população. A confusão entre exclusão e desigualdade social resulta de uma operação ideológica e semântica que pretende reduzir o universo dos problemas no âmbito do estado e do imaginário social.Trata -se de naturalizar as desigualdades na vida em sociedade. Por isso é necessário desconstituir esse discurso a começar pelo reconhecimento público da necessidade de que direitos sociais e políticos sejam assegurados no Brasil ainda que, à frente de governos, o PT tenha limitações para fazê-lo.
Por outro lado, a potência e a efetividade de nossa elaboração serão tanto maiores quanto for nossa capacidade de retomar o que produzimos em todas as áreas, no âmbito do partido e das experiências parlamentares e de governo. É imprescindível conhecer e resgatar as políticas desenvolvidas pelo governo Lula até aqui o que supõe não restringir o debate à política econômica ainda que ela seja muito importante para a ruptura com o legado neoliberal. A transformação do PT depende também do resgate de sua memória e de sua história sem o que não há reflexão que ultrapasse os limites da conjuntura imediata.
Muitas são as questões que deverão ser objeto de discussão: a reforma do estado, a reforma política e do judiciário; o perfil e o sentido do pacto federativo, as políticas sociais e sua relação com o desenvolvimento, com ênfase na política educacional e na produção de ciência e tecnologia, a reforma agrária, a política agrícola e a política industrial no contexto de uma orientação econômica que seja capaz de promover crescimento, distribuição de renda e o desenvolvimento sustentável do país. Estes são alguns entre outros temas, mas é preciso reafirmar que o vigor desse debate dependerá da capacidade de o realizarmos com inúmeros militantes e simpatizantes do PT. Para as novas gerações de petistas este processo pode representar uma das primeiras experiências de formação que ultrapasse os limites do pragmatismo.
*Selma Rocha é diretora da Fundação Perseu Abramo
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