Viemos de fora dos beirais da Casa Grande.
De pedra e cal. Branca e barroca:
banhada em doçura e crueldade.
Não tínhamos "um pé na senzala"
como revelam senhores de punhos de renda,
cevados nas tardes de ócio,
sobre mesas de jacarandá,
forradas com toalhas alvas
de renda portuguesa.
Senhores cevados, como outrora,
na carne noturna das negras de eito.
Não tínhamos "um pé na senzala", repito.
Éramos a própria senzala.
Já não somos? Que fizeram de nós?
Que fizemos de nós?
Fixamos, altivos, olhos nos olhos,
a velha esfinge de cinco séculos,
o monstro bi-fronte:
o açoite, o tronco, o pelourinho,
os cambaus, a marca de ferro no ombro e na alma,
a forca, o sabre, a cabeça cortada, na véspera do levante.
Ou a sutil doçura da poção
que destila a serpente no sangue de sua presa
e lhe envenena os sonhos.
Sobra apenas aquela hipnose,
o deslumbramento
que antecede a morte...
Recusamos a morte e seus labirintos.
Nascemos condenados ao combate.
E se o braço em algum instante
se ergueu num gesto vil
que o outro o desconheça
e a mão com força empunhe a lâmina,
baixe de um golpe o sabre,
extirpe a carne podre
e lance aos abutres.
O sangue vivo do ombro será semente.
Dele nascerá um braço novo, de cristal,
regenerado, ainda no curso da batalha.
Avançamos pântano adentro
pontilhado de armadilhas,
sem regras ou contornos definidos.
Já não há caminhos.
Há que traçá-los com a memória e a paixão:
poeta, me guiam canções antigas,
o clamor das assembléias,
e as fogueiras dos acampamentos...
*Pedro Tierra é poeta.
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