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A guerra dos cordiais

publicado em 22/11/2006

Por Flávio Aguiar

Nós, os cordiais, sempre levamos para o espaço público nossas afecções, desafecções, até mesmo nossas infecções da vida privada. Isso exige uma certa dose de exagero no comportamento, para legitimá-lo. O carnaval de exageros das CPIs e da crise política não são uma estranha anomalia em nossa história.

Quando eu era guri, ouvia críticas sobre os atores cinematográficos brasileiros, dizendo que eles padeciam de overacting. Ou seja, eram exagerados em cena, fazendo caras e bocas a toda hora. Lembro-me em particular de minha musa Eliana que, a cada emoção, erguia a sobrancelha esquerda e nos deixava estáticos e extáticos: ela (a sobrancelha) na tela e eu (eu mesmo) na platéia.

Revendo aqueles tempos, não acho que esse tipo de atuação fosse destituído de realismo. Assim era a vida brasileira naqueles tempos, em que se procurava imitar o american way of life e o american way of cinema. A forma de ver nossa imitação como algo criativo era dotá-la de exagero. E isso correspondia e corresponde a um profundo estro de nossa cultura social e política, aquela que nos faz ser os campeões da cordialidade definida por Sérgio Buarque.

Nós, os cordiais, sempre levamos para o espaço público nossas afecções, desafecções, até mesmo nossas infecções da vida privada. Isso exige uma certa dose de exagero no comportamento, para legitimá-lo. Não basta termos amores e ódios inconfessáveis de modo explícito, que ditam nossas lealdades políticas, em lugar de ideologias e razões. Para legitimar essa troca de valores, é necessário mostrá-los com exagero, exibi-los, "demonstrar" a sua inevitabilidade em função de preceitos supostamente maiores. Como já disse alhures, o modo mais freqüente de assim agir é "moralizar" tudo o que vemos: nossos aliados de hoje são apresentados como ínclitos defensores da probidade política desde sempre; nossos inimigos de agora, sobretudo se foram aliados ontem, são definidos como vis traidores provavelmente desde o berço. Aos primeiros, aplicamos os parâmetros do mais desbragado idealismo para descrevê-los; aos segundos o implacável rigor de nosso pensamento analítico e crítico, para não dizer cítrico.

Assim pois, cara leitora, caro leitor, não pense assistir estranha anomalia ao ver o carnaval de exageros que estas CPIs e esta crise política foram, sobretudo na televisão, desde sempre. O nauseabundo moralismo que dali emana, de longa raiz e tradição udenistas, é o motor dessa cordialidade de araque que governa o espetáculo do overacting destinado a embalar a visão dos reacionários e conservadores tanto na Casa Grande como no condomínio da classe média; igualmente entre os desassistidos da Senzala que, como o escravo de Hegel, prefiram sobreviver à míngua e a migalhas do que arriscar-se nas aventuras da liberdade - ainda que tal submissão possa ser mais compreensível do que a acomodação apalermada ou esperta nos outros ambientes.

Pois veja, sensível leitor ou leitora: José Dirceu certamente não será cassado pelos erros políticos que tenha cometido, nem por quaisquer provas existentes contra malfeitos penais que, de resto, inexistem (as referidas provas). Também não será cassado, se o for, por quebra de um decoro que a casa congressual, como um coletivo, entregue ao espetáculo digno de circo romano há meses, não tem primado por manter. Se for cassado, e na bolsa de apostas diz-se que ele será a 10 por um, ele o será pelos ódios que sua "figura" desperta.

Coloquei "figura" assim, entre aspas, por não se tratar dele mesmo, o Zé; mas sim da máscara política que lhe atribuem, e que por certo ele mesmo ajudou a construir, a máscara do overacting: José Dirceu, o durão, o capitão do time, o implacável, o isto ou aquilo. Este "José Dirceu" desperta o ódio da direita pelo seu passado militante, e o temor da mesma direita por aspirar a ser um eventual sucessor de Lula (assim se espalha o boato por aí). Despertou o ódio à esquerda por aparecer como o condestável de um processo de expurgo no partido levado a cabo por gente que ele, inegavelmente, ajudou a levar à condição de dirigente partidário, como Sílvio Pereira. José Dirceu tornou-se assim o alvo, a bola da vez, do moralismo hipócrita e infecto. No universo cordial há uma distância enorme entre o crime e o castigo. O crime pode até ser perdoado; o castigo virá, na certa, se tanto o crime como a virtude quebrarem o decoro implícito nas classes dirigentes brasileiras, que é o de manter o povo sempre fora do círculo das decisões. Se José Dirceu for cassado, ele o será mais por ter sido uma das alavancas da eleição de Lula, pelo ódio ancestral que isso desperta na Casa Grande e seus arautos e ramificações em outras classes, do que por qualquer contravenção ou quebra de decoro que tenha praticado.

O mesmo overacting aparece na pretensa denúncia dos dólares de Cuba, transportados aparentemente em caixas de uísque e rum. Alguém acha razoável que o serviço secreto de um país que sobreviveu ao fim da Guerra Fria - o único - fosse se envolver com um esquema com expoentes como Burattis e Poletos para por dólares no Brasil? Tudo isso faz pensar que uma caixa de uísque ou rum tenha sido consumida pelos autores da denúncia antes de apresenta-la como verossímil, sem falar no detalhe sempre notável de que a testemunha chave é um morto (depois dizem que o narrador de Memórias Póstumas de Brás Cubas é inverossímil).

De resto o hardcore do PC cubano nunca morreu de amores pelo PT, partido cheio de troscos ou ex-troscos, de tendências, pluralista por vocação (seja qualidade ou defeito de nascença), social-democrata em suas melhores e piores práticas.

Mas Veja, para se manter no alto do ranking, já meio combalido, das denúncias que assolam o país, precisa sempre de algo grande, maior, espetaculoso. Sua parte jornalística propriamente está em crise faz tempo; sua sobrevivência depende cada vez mais de se tornar a imprensa marrom daquele moralismo cordial à direita, mas que agrada também um pensamento de verniz contestador, que gosta de ver em nossa pátria apenas o signo da sua crônica inviabilidade, no albor do século passado por questões de raça, no albor deste por questões de povo.

Na mesma esteira vão as promessas overacted de "dar surras" no presidente da República. Curiosamente, essa promessa grotesca que, ela sim, quebra o decoro parlamentar, ou melhor, evidencia a profundidade do desrespeito cotidiano para com ele, uniu próceres do PSDB, do PFL e do PSOL, numa atitude que evidencia o machismo chovino (inclusive por parte da senadora) que continua instruindo a nossa cordialidade. Machismo que, diga-se de passagem, instruiu em boa parte, ainda que inadvertido e inconfesso, a recente popularidade do "Não" no referendo sobre armas, entre meios que se propalam esquerdos e ilustrados.

No fundo, esses espetáculos mais recentes de cordialidade cardiopática vêm demonstrar a existência de uma suspeita grave, para quem por ela é assolado: no ano que vem pode ser que Lula não seja reeleito, mas se assim for, será por seus próprios erros ou do seu governo ou do partido a que pertence. Tanto a direita quanto a extrema esquerda podem saracotear à vontade, que seu poder de fogo e da mídia que apóia aquela e agora acolhe esta, ainda é limitado. O povão ainda tem formas de resistência e de pensamento insuspeitas, até para as esquerdas, quanto mais para as direitas.

Cresce nas hostes opositoras a desconfiança de que a política higienista da administração de Serra em São Paulo tem pernas políticas curtas; que no quadro atual de pesquisas, ainda fora de campanha, pode ser que PSDB e PFL tenham atingido seu teto, enquanto Lula e PT tenham atingido seu piso. A gestão de Alckmin também dá espetáculos de cordialidade explícita: a resistência de um punhado de moradores das imediações da praça dos Três Poderes, junto à Av. Francisco Morato, à previsão de presença de ônibus e camelôs, inviabilizou a necessária construção de uma estação do Metrô no local.

Nessa situação nada confortável, só restam tentativas de desestabilização absoluta, tentativas como estas (as das prometidas e grotescas surras) de provocar um destempero do presidente (imagine ele insultar uma mulher num confronto político!), o que não é impossível, ou de provocar um desarranjo partidário no PT com e ameaça de cassação de sua licença, como a do Partidão em 47, o que poderia provocar novos rachas num partido que, apesar das dificuldades, se recompõe.

Em resumo, esta crônica me deixou com saudades da Eliana e daqueles tempos.

*Flávio Aguiar é professor de Literatura Brasileira na Universidade de São Paulo (USP) e editor da TV Carta Maior.

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